A moradia na velhice avançada: uma conversa necessária e de longo prazo

Recentemente escrevi sobre os cuidados destinados às pessoas mais velhas das nossas famílias e redes de convivência. Entre os pontos destacados, chamei atenção para uma atitude recorrente: falar da velhice como se ela dissesse respeito apenas aos outros, esquecendo que todos nós envelhecemos a cada dia.

O idadismo (preconceito baseado na idade) está entre nós e muitas vezes de forma imperceptível, uma vez que está enraizado na nossa cultura. Historicamente, a sociedade ocidental foi categorizando as condutas das pessoas, como que regulando o que está ou não dentro da norma. Essa forma de gestão da sociedade, serviu à perpetuação do sistema que se instaurou a partir da modernidade, voltado ao capital, com efeitos que ainda se fazem presentes no cotidiano contemporâneo. Dessa forma, a evitação da velhice e o preconceito contra as pessoas velhas são algumas das manifestações contra “o outro”, que acabou sendo incorporado no imaginário como o fora da norma esperada. Norma que anseia produtividade, rapidez e ação imediata. Esse outro vai sendo mais marginalizado quantas mais intersecções de recortes populacionais vulnerabilizados tiver na sua existência: classe, raça, gênero, nacionalidade, deficiência, religião, etc.

O motivo deste brevíssimo apanhado histórico é chamar a atenção para os discursos da cultura que nos precedem, exercendo influência, mesmo que parcial, na forma como vemos o mundo e como agimos nele. Vale cada um se perguntar sobre a forma que enxerga os tantos outros com quem cruza e convive, como fala e se dirige a eles, principalmente àqueles que fogem a um certo padrão: a pessoa com deficiência, a pessoa gorda, a pessoa idosa, a pessoa imigrante. Podemos pensar que o longo prazo da expressão “conversa a longo prazo” remete não só a uma conversa que leva tempo para acontecer, mas também à forma que a sociedade trata a velhice, pois esta não é sem história, ao contrário, tem uma construção de longo prazo.

Mas o que isso tem a ver com a moradia da pessoa idosa? Trata-se de um tema ainda pouco resolvido nas políticas públicas brasileiras e gaúchas, com impactos especialmente significativos para a população mais pobre (a mais numerosa na população idosa). Esta depende mais diretamente das políticas públicas disponíveis para garantir proteção e dignidade no final da vida. Temos uma classe média com melhores condições de se sustentar, mas em risco constante de ir à falência ou sofrer crises financeiras. São pessoas que, potencialmente, dependerão mais do estado; por exemplo, podem ter que abrir mão do convênio de saúde por não conseguir arcar com os custos, passando a depender do nosso Sistema Único de Saúde (SUS). Segundo o Estudo Longitudinal da Saúde dos Idosos Brasileiros de 2024, 81,4% da população idosa do país depende exclusivamente do SUS. Mesmo entre as pessoas com maior poder aquisitivo, permanecem questões relacionadas à moradia, não por recursos financeiros, mas pelo processo de decisão do lugar de residência dos mais velhos no final da vida, em casa com cuidadores ou em moradias coletivas.

De forma muito diferente, no caso de pobres e ricos, a vida impõe que famílias e comunidades tenham de se haver com o cuidado dos mais velhos e uma das tantas variáveis é a da moradia. Pode seguir sendo na sua própria residência, na de familiares ou pessoas da rede de apoio ou em moradias coletivas, conhecidas como lares ou residenciais geriátricos ou até ainda denominados de asilos. A política pública chama-os de ILPI (Instituições de longa permanência para idosos). Em todos os casos, uma variável é constante: a necessidade de cuidados de terceiros, mesmo que seja somente na velhice avançada. Há também modelos mais recentes, como condomínios voltados para pessoas idosas, com serviços de saúde e lazer, ainda pouco acessíveis e praticamente inexistentes na política pública.

Há famílias que optam por cuidar de seus próprios membros dependentes, sem contratação de cuidadores, trabalho que fica na sua grande maioria a cargo das mulheres, cônjuges, filhas, noras, irmãs. Ocorre que na contemporaneidade as famílias têm tido menos condições de exercer o cuidado dos mais velhos, seja pela necessidade de trabalhar, pela diminuição da quantidade de filhos por família, entre outros fatores. Desde 1950, o Rio Grande do Sul apresenta taxas de fecundidade cada vez mais baixas. O IBGE aponta que a taxa de fecundidade média no estado passou de 5,22 para 1,57 filhos por mãe de 1950 a 2022.

Quem consegue arcar com cuidados de terceiros recorre a cuidadores domiciliares ou instituições de permanência diurna ou de moradia. Em todos os casos, se coloca a tomada de decisão de onde os mais velhos vão passar a última etapa da sua vida. Isto pode envolver uma conversa difícil por discordâncias entre visões e opiniões sobre a forma como abordar junto à pessoa idosa o desafio que se coloca, caso esta não fale no assunto e tome a frente das decisões, de forma autônoma (o que deve sempre ser visto como uma possibilidade).

Conviver com uma ou mais pessoas idosas e ter que prestar apoio ou até ter que tomar para si a gestão do cuidado de outro é uma dessas situações que requerem importantes adaptações na vida, assim como flexibilidade, sensibilidade e empatia em relação à situação e dor do outro. E isso não é sempre fácil e agradável pois envolve relações íntimas, desejos e opiniões que se chocam e precisam de tempo para se acomodarem dentro da dinâmica dos envolvidos no cuidado. É importante que a conversa se estabeleça no meio familiar e/ou comunitário e se mantenha à medida que a vida vai acontecendo e impondo seus acidentes e desafios que requerem intervenção na vida da pessoa para sua proteção.

Uma conversa a longo prazo significa falar sobre o assunto no decorrer da vida e seus desafios: as quedas, os pequenos acidentes, os esquecimentos recorrentes e/ou prematuros. A própria pessoa pode ir percebendo a concretude das limitações à medida que conversa sobre isso e ir pensando em estratégias para viver bem ou o melhor possível dentro das condições que se apresentam.

Ocorre que, frequentemente, o tema do envelhecimento permanece como tabu, evita-se entrar nele, principalmente quando se refere a limitações e tomadas de decisões difíceis. As próprias pessoas idosas são fruto de um tempo em que não se falava abertamente sobre problemáticas dos ciclos da vida, sendo comumente apegadas a verdades que muitas vezes não se sustentam, mas estão a serviço de negar seu próprio processo de envelhecer. Podemos pensar naquele senhor ou senhora que insiste em não aprender a usar bengala e continua caindo por falta de equilíbrio. Também há pessoas que se adaptam melhor às mudanças do tempo, mas em todos os casos, essas diferentes formas de envelhecer precisarão de algum tipo de apoio para poder acomodar suas vidas na idade avançada.

Essas são questões delicadas que não se resolvem em poucas conversas. Envolvem revisões de decisões, negociações entre diferentes perspectivas, assim como as relações e dinâmicas singulares daquele núcleo de pessoas. E por isso não pode ser vista como uma decisão administrativa e puramente objetiva, pois envolve a subjetividade e dignidade das pessoas idosas em questão. Por mais complexas que possam ser as relações, para que decisões justas possam ser tomadas, a palavra tem que ter lugar.

Parte desse processo desafiador é que os apoiadores das pessoas que precisam de cuidados possam olhar para seus próprios preconceitos sobre a velhice. Como alertado anteriormente, esse olhar para as próprias limitações passa também por questionar-se sobre como o meio em que vivemos e os discursos que escutamos podem estar reproduzindo imaginários construídos no passado, pautados em premissas normativas e totalizantes, que acabamos incorporando sem nos darmos conta.

Podemos pensar em uma conversa entre familiares que, sem darem-se conta, listam opções para a vida de um progenitor que não está bem de saúde, que recebeu um diagnóstico importante e pode piorar. É mais comum do que imaginamos que a pessoa mais velha, mesmo que lúcida, seja excluída das discussões sobre os rumos de sua própria vida. Incluir a pessoa nas decisões sobre sua vida é fundamental para um desfecho justo, mesmo que não seja o ideal e acabe tendo que depender da decisão de outros para algumas situações. Mas, às vezes, para poder incluí-la é necessário se pensar no processo, buscando evitar a reprodução de atitudes verticais e até violentas.

Para concluir, retomo o foco central do que propus: encarar os processos do envelhecimento e da idade avançada que afetam tanto o sujeito idoso, como o núcleo de pessoas com quem este convive. Conversar, ir e voltar, buscando respeitar os tempos das pessoas envolvidas, reconhecer os tropeços, o que é dificultado pelo ritmo acelerado e as exigências da contemporaneidade.

A psicanálise, por meio da escuta, pode apoiar as pessoas a se posicionar nestes processos, a reconhecer suas limitações e desejos, tomar perspectiva da sua posição dentro de seu contexto, a tornar a conversa a longo prazo algo menos pesado e solitário, a se rever para reinventar as formas de cuidar a si e ao outro.

Joana Finkelstein Veras
Porto Alegre, 13 de setembro de 2026.