Você já ouviu falar em idadismo?
Joana Finkelstein Veras
Psicóloga, Psicanalista (CRP 07/12761)
Porto Alegre, fevereiro de 2026.
O termo “ageism” foi criado em 1969 pelo gerontólogo norteamericano Robert Butler.
“Age” em inglês significa idade; daí vem a tradução direta de ageism para idadismo. A idade
é uma das primeiras características que percebemos nas outras pessoas e o preconceito
acontece quando a idade é usada para categorizar as pessoas de maneira pejorativa,
desvantajosa e injusta. Adolescentes podem ser ridicularizados por iniciarem um movimento
artístico ou político, assim como pessoas mais velhas ou mais novas podem não ser chamadas
para uma vaga de trabalho em função da idade. “O idadismo se refere a estereótipos (como
pensamos), preconceitos (como nos sentimos) e discriminação (como agimos) direcionadas
às pessoas com base na idade que têm (OPAS, 2022, p. XVII)”. Pode apresentar-se nas
relações interpessoais, institucionais e contra si próprio; e claro que está presente no
consultório.
O idadismo é mais comum na velhice e se manifesta de diversas formas. É importante
estarmos atentos a como nós psicólogas, psicoterapeutas, psicanalistas nos havemos com a
questão da idade, como percebemos e vivenciamos isso ao longo da vida, pois a convivência
com pessoas idosas é uma realidade que segue crescendo. É possível afirmar que de uma
forma ou de outra, essa questão, se não emergiu ainda irá fazer parte das nossas vidas, seja no
âmbito pessoal ou profissional. Ser idadista não significa esbravejar raiva contra pessoas
idosas de forma direta. Enunciados pejorativos podem ser escutados nas entrelinhas. Afinal, é
nas sutilezas que a vida acontece.
A discriminação contra as pessoas idosas pode surgir em uma conversa entre irmãos,
que, sem darem-se conta, listam opções para a vida de seus progenitores, que não estão bem
de saúde e podem piorar. É comum que a pessoa mais velha, mesmo que lúcida, seja deixada
de lado ao pensar opções para o rumo de sua vida. Tentar fazer acelerar certas atividades da
vida diária, como a utilização do celular ou do controle remoto, não respeitando o tempo da
pessoa, também é uma forma de idadismo, assim como ficar impaciente ao perceber que a
pessoa não está escutando bem, chamar e falar com alguém no diminutivo, com voz aguda,
entre tantas outras situações que eu imagino seguirão passando pela cabeça de quem está
lendo.
É sempre bom lembrar que o idadismo se cruza e interage com outras formas de
estereótipos, incluindo os de classe, raça, capacidade e gênero. Isso quer dizer que pessoas
com sobreposição de pertencer a diferentes grupos estigmatizados podem sofrer mais
intensamente o idadismo, que traz impactos na expectativa de vida, na saúde física e
cognitiva, na vida afetiva e social e pode aumentar o risco de violência e abuso (OPAS,
2022). Importante dizer que mulheres sofrem de forma mais acentuada as imposições e
normas sociais relacionadas ao feminino, que ainda vendem a ideia de uma beleza idealizada
e descontextualizada, que privilegiam a juventude, fazendo com que o envelhecimento físico
feminino seja frequentemente percebido de maneira mais negativa que o dos homens (CFP,
2025).
Alexandre Kalache destaca que, ao mesmo tempo em que há um grande apelo
midiático para questões voltadas ao público idoso e que este tem ganhado maior liberdade em
vários aspectos, vivemos uma “cultura do antienvelhecimento”. O Brasil é o país que mais
realiza procedimentos estéticos com o objetivo de não mostrar as marcas do envelhecimento
no corpo.
Na cultura judaica, a Torá assume uma atitude otimista frente à velhice, inclusive à
feminina. É comum que expoentes importantes, como Moisés, que teria vivido 120 anos,
sejam longevos. Há diversas referências sobre o tempo ser relativo; viver muitos dias, ou
muitas estações está relacionado à sabedoria. Ailton Krenak chama a atenção que na cultura
ocidental há uma grande ênfase dada à cronologia como principal fator da passagem do
tempo, o que influencia a relação que a velhice acaba tendo com o mercado. Pessoas não têm
prazo de validade, não são produtos e as que mais ensinaram a ele sobre a vida são as mais
velhas, como costuma a acontecer nas culturas indígenas. “As pessoas antigas têm a
habilitação de quem passou por várias etapas da experiência de viver; (…) são os contadores
de história, os que ensinam a medicina, as artes, os fundamentos de tudo que é relevante para
ter uma boa vida”.
Conceição Evaristo traz também a dimensão da transmissão coletiva e da preservação
da memória, referência também de povos afro-brasileiro. Ela alerta que um importante aliado
para o combate ao idadismo pode ser o estímulo a trocas intergeracionais, potencializando a
convivência comunitária e o aprendizado e troca de afeto entre jovens e pessoas mais velhas;
relações de muito potencial que podem ensinar a conviver e a gostar do diferente.
Referências:
Conselho Federal de Psicologia (CFP). Referências técnicas para atuação de psicólogas(os)
junto às pessoas idosas nas políticas públicas [livro eletrônico]; CFP – 1.ed. – Brasília, DF :
Conselho Federal de Psicologia, 2025. Disponível em: Link4 . Acesso em: 01/02/2026.
Evaristo, Conceição. Fala na 6ª Conferência Nacional dos Direitos da Pessoa Idosa. Brasília,
2025. Disponível em: Link. Acesso em 01/02/2026.
Kalache, Alexandre. A melhor coisa que pode nos acontecer é envelhecer. [Entrevista
concedida ao Centro de Estudos Estratégicos Fiocruz]. BARDANACHVILI, Eliane.
Envelhecimento. Rio de Janeiro, 9 de set. de 2021. Disponível em: Link2. Acesso em:
01/02/2026.
Krenak, Ailton. Futuro Ancestral. Companhia das Letras Ed.: São Paulo, 2022.
Krenak, Ailton. Velhice. [Entrevista concedida ao programa Filosofia Pop]. TIBURI, Márcia.
Filosofia Pop. São Paulo: Sesc TV, 14 de nov. 2019. Disponível em: Link3 . Acesso em:
01/02/2026.
Organização Panamericana de Saúde / Organização Mundial da Saúde (OPAS/OMS).
Relatório mundial sobre idadismo – . Brasília: OPAS, 2022.
Torá com fritas. Episódio 104 – Judaísmo e envelhecimento. Disponível em Link5 .
