Considerações sobre narrativa, rememoração e a questão da transferência
Texto publicado no Correio Appoa, Vol. 8, nº 5, junho/2021 – https://appoa.org.br/correio/imprimir/materia=982
“As lembranças não são um relato apaixonado ou desapaixonado de uma realidade que desapareceu, mas um renascimento do passado, quando o tempo se volta para trás. Antes de mais nada, é uma criação” (Svetlana Aleksiévich)”
Este trabalho inscreve a experiência do fim de um percurso, o da APPOA na turma XV. Tece reflexões sobre o ato da rememoração por entre referências históricas que representam a importância do resgate da memória. Articula-se a isto a questão da transferência como mediadora para o alcance das recordações esquecidas, na clínica psicanalítica. As contribuições de Freud e Lacan constituem a base teórica.
O ato da rememoração é proposto pelo psicanalista de forma indireta, através de um convite, com etiqueta, que faz ao paciente para o engajamento na tarefa de comunicar tudo que vem à mente, sem crítica. Apresenta-se a regra fundamental da psicanálise: a associação livre.
Na lição II do seminário sobre a Transferência, Lacan destaca que a escrita do Banquete de Platão teve origem em narrativas. O Banquete, um tipo de simpósio no qual ocorreram apresentações sobre as qualidades e natureza de Eros, foi escrito por volta de 385-370 a.C. O locutor de Platão não teria sido o primeiro a transmitir a experiência. Aristodemo (presente no evento) teria contado a Apolodoro o que ocorrera na ocasião, em torno de 30 a 50 anos antes do registro escrito. É lembrada a técnica antiga de gravação no cérebro utilizada quando a escrita ainda não havia assumido função dominante na cultura como forma de transmissão. Se reconhece que a veracidade histórica fica comprometida, mas a distorção se dá com coerência: “Se é uma mentira, é uma bela mentira – e como é, por outro lado, manifestamente uma obra de amor, e talvez cheguemos a ver despontar a noção de, afinal, só os mentirosos podem responder dignamente ao amor” (LACAN, 1960/2010, p.42).
Penso que, com este apontamento, Lacan transmite, a sua maneira, pontos cruciais que aprendera com Freud: a importância de falar livremente (sem oferecer técnicas sugestivas como a hipnose, outrora utilizada pelo pai da psicanálise) para permitir as condições de rememoração, assim como o reconhecimento da ética do desejo para se chegar à verdade possível de ser alcançada, transformando-a em saber sobre si. Contradizendo teorizações próprias anteriores, Freud postulou que a verdade não se limita à verdade factual dita, conclusão informada pela primeira vez em uma carta a seu confidente Wilhelm Fliess, em 1897. Com a célebre frase “não acredito mais em minha neurótica”, aquele resume a transição da teoria da sedução para a teoria da fantasia. Concluiu improvável que tantos pais de pacientes histéricas tivessem seduzido suas filhas, tornando-as vítimas de abuso; contudo, não deixou de creditar veracidade à narrativa destas, elevando a importância da realidade psíquica baseada no inconsciente.
Nos textos sobre a técnica fica consolidada a posição freudiana, acompanhada do anúncio do tamanho do desafio: o objetivo de a recordação ocorrer no campo psíquico, mesmo que se saiba que tal pretensão não pode ser atingida com a nova técnica. O analista deve estar preparado para um embate com o paciente para manter na esfera psíquica os impulsos que este gostaria de dirigir para a esfera motora. Haverá momentos de triunfo para o tratamento, nos quais a análise será capaz de impedir o paciente de executar algumas das ações repetitivas importantes e utilizar-se da sua intenção de assim proceder, “in statu nascendi”, como material para o trabalho de recordar (Freud, 1914).
Esses triunfos são consequência de intenso trabalho, os quais implicam a compulsão à repetição:
“(…) não [se] pode fugir a esta compulsão à repetição; e (…) compreendemos que esta é a sua maneira de recordar. O que nos interessa, é (…) a relação desta compulsão à repetição com a transferência e com a resistência (…) a transferência é, ela própria, apenas um fragmento da repetição e que a repetição é uma transferência do passado esquecido (…) o paciente se submete à compulsão à repetição, que agora substitui o impulso a recordar…” (Freud, 1914, p.150-151).
Em busca de eventos históricos que representassem a importância da narrativa e da rememoração e em meio à proximidade temporal do infeliz aniversário do golpe de 1964, lembrei de um livreto sobre a ditadura civil-militar no Brasil, o qual foi distribuído certa vez na APPOA. Os Arquivos de Vó Alda (SIG, 2015), resultado do projeto Clínicas do Testemunho, é oriundo da iniciativa federal da Comissão de Anistia, que destinou verba pública a iniciativas que fizessem justiça à memória do horror vivido em um regime que vigeu por 21 anos.
Trata-se de uma idosa vítima da violência do silenciamento produzido pela vergonha de falar sobre o vivido. O silêncio foi atravessado quando sua consciência já não estava mais aqui; acometida pelo Mal de Alzheimer, sua memória pôde ser transmitida pelo testemunho familiar, baseado no que Alda deixou de indícios em suas alucinações, somado ao que dissera sobre seu desejo antes de adoecer: era amante da leitura e sonhava em criar uma biblioteca.
O médico recomendou que se investigassem situações de estresse do passado. Sua filha conta que, somente depois do adoecimento da mãe, percebeu que recordar era importante para esta. A quantidade de livros que tinha não causou surpresa. A novidade foi a quantidade de documentos escondidos no meio deles. Seu apartamento era um “memorial”, “um mundo paralelo” e os chamados, até então, “entulhos” pelos familiares ganharam novo sentido, tornaram-se “rastros de vida”.
Seus netos queriam compreender a desorganização da avó:
(…) com cabelos amassados, camisola e meias curtas, parecia marchar repetindo muitas vezes as mesmas perguntas: Onde eles estão? Vieram me buscar? (…) Eles estão vindo… Vão me colocar na maricota[1]… Vou para o Uruguai (…). Minutos depois, sentada na poltrona parecia desligada da tomada. Em tom baixo, mais calma, iniciava nova cantinela: O aparelho[2] caiu…(SIG, 2015, p.25).
Despertaram para o fato de que seria a memória dos familiares que faria com que ela não desaparecesse e começaram sua investigação, a qual deu origem a propostas. Guilherme (13 anos) ,decide montar uma representação teatral. Laura (15 anos), reflete que uma biblioteca poderia não gerar o interesse de seus pares em tempos de internet móvel e opta por um livro sem fim, escrito aos poucos por jovens, com histórias semelhantes. Na última página de sua proposta, linhas em branco.
Retomo: a filha passa a perceber que para Alda guardar memórias era significativo quando um terceiro intercede na cena familiar, o médico. Há uma transferência estabelecida que permite um deslocamento das posições assumidas; entulhos passam a ser rastros de vida. Essa desacomodação remete ao aviso deixado por Benjamin: “O dom de despertar no passado as centelhas da esperança é privilégio exclusivo do historiador convencido de que também os mortos não estarão em segurança se o inimigo vencer”(BENJAMIN,2012, p.244).
Foi a partir da escuta de traumatizados pelas guerras que Freud reformula, em 1920, a sua primeira teoria das pulsões. Ao reconhecer que há um mais além do princípio do prazer, postula que a compulsão à repetição é representante da pulsão de morte. Na vinheta, ficam evidentes as conseqüências do silenciamento. O esforço por esconder a experiência de violência remete ao inassimilável do trauma. Aparece o fator do susto, que ameaça a vida, levando à fuga para a doença. A compulsão de entulhar o que remetia à memória do trauma pode ter produzido gozo mortífero, mas pode também ter auxiliado na manutenção da lucidez, por tantos anos, ao se deparar com a “escolha” de manter silêncio.
Não distante no tempo do calendário gregoriano de (des)celebrar essa ditadura ocorre a comemoração do Pessach, a Páscoa judaica. À beira da festividade deste ano, vi nas redes um texto que havia arquivado uns meses antes sobre o Levante do Gueto de Varsóvia, marco da resistência dos judeus ao nazismo e a primeira revolta armada daquele período. A leitura me ensinou sobre a correlação entre o subversivo ato e a celebração da passagem judaica para a libertação. O Levante iniciou em 19 de abril de 1943 e a escolha da data não foi gratuita. Naquele dia, pelo calendário judaico comemorava-se Pessach, o êxodo, a libertação do cativeiro no Egito. A correspondência visava agregar força simbólica à rebelião e, atualizando a luta dos antepassados, foi uma forma de rememoração e resistência. (Aguiar, 2020).
A política de extermínio nazista da segunda guerra mundial foi inspirada na ambição de alcançar uma raça pura, um mundo sem judeus, através de planejamento minucioso. Primeiramente, os judeus foram deslocados para guetos de passagem (de condições desumanas), para depois serem transportados para os campos de extermínio. O gatilho para a irrupção do Levante, que durou em torno de um mês, foi o início da deportação para os campos. Embora claras as poucas chances de êxito militar, os combatentes preferiram resgatar a dignidade frente ao inimigo, afinal, escolher entre a morte e a liberdade traz em retorno ambas.
A rememoração do Levante tomou dimensão mundial, com reflexos em Porto Alegre, ratificando seu sentido ético-político e perpetuando o imperativo ético zahor (lembrar) a memória da tradição judaica (Aguiar, 2020).
Faço uma metáfora, buscando transitar da experiência coletiva para a individual. Os protetores da memória do gueto deslocaram-se da imposta condição de vítimas e passaram a produzir memória: diversos tipos de documentos foram cuidadosamente coletados, catalogados e posteriormente enterrados no subsolo, quando da notícia das deportações (Jewish Historical Institute, 2012).Na clínica, o início do tratamento é marcado por uma mudança no analisante em relação à sua neurose, não subestimando mais sua importância; há uma aceitação do sintoma, não no sentido da conformidade mas no reconhecimento de que este possui sentido de ser. Os agravamentos na condição psíquica (esperados ao longo da análise, uma vez estabelecida a neurose de transferência) são “necessários e temporários (…) não se pode vencer um inimigo ausente ou fora de alcance”.(Freud, 1914, p 152).
Fica evidente a importância da narrativa da experiência para a assunção da posição do sujeito como desejante, dividido, aquele que consegue, nas palavras de Benjamin, arrancar a tradição ao conformismo.
Na clínica, a narrativa é direcionada a um analista. Freud compreendeu a necessidade de servir-se do amor de transferência para ter êxito no empreendimento da recordação. A natureza das relações amorosas primárias, de cunho ambivalente, torna inevitável que todo sujeito se aproxime de cada nova pessoa com idéias libidinais antecipadas, recorrendo a protótipos parentais; o analista é incluído numa das séries psíquicas do paciente. Torna-se, então, irremediável que a transferência assuma também uma dimensão de resistência (Freud, 1912; Freud, 1914).
No início, a queixa assume um estatuto de resposta, sendo necessário que passe a tomar o estatuto de questão, capaz de ser decifrado. Em Freud: o que fez com que o recalque tenha fracassado e surgido o retorno do recalcado em forma de sintoma? Em Lacan: é necessário que o sintoma, que é um significado para o paciente, readquira a dimensão de significante. Na cadeia significante constituída cabe ao analista apontar a questão do desejo, buscando transformar o sintoma na pergunta que Lacan coloca como: que queres? O analista é esperado a responder o que significa o sintoma, pois se supõe que tem o saber sobre o gozo em causa, o que na verdade é impossível. É assim que o analista é incluído no sintoma, completando-o (Quinet, 2017).
Se o que interessa é a relação da compulsão à repetição com a transferência e com a resistência, então o analista deve possibilitar as condições para que ocorra a rememoração em ato. Lacan destaca que a transferência não é condicionada pelo analista; ela se instala graças ao analisante e o analista não tem que dar conta do que a condiciona ( Proposição de 1967).
No Banquete, Alcibíades irrompe como um elemento surpresa, transgredindo as regras; decide que seu discurso não será sobre Eros e sim sobre Sócrates, a quem ovaciona. É por Sócrates estar no lugar do suposto saber que o discurso de Alcibíades se dirige a ele; porém, isso não tem origem em Sócrates, que não cede à sedução. Sócrates sabe que não possui o objeto precioso que lhe é atribuído e sim que detém sua significação. Ele recusa o simulacro. Frente à demanda (de amor) do analisante, deve-se assumir uma posição diferente, consagrando-se o agalma, essência do desejo, estando disposto a se deixar ver reduzido a um significante qualquer, em nome desse agalma, onde Lacan localiza o objeto a. O analista se empresta para encarnar o sujeito suposto saber, porém não deve identificar-se com essa posição, pois é um equívoco. Sua posição é de ignorância, não a bruta, que nada conhece, mas a ignorância douta, a que denota conhecimento dos limites e o reconhecimento de que a psicanálise é um saber que inclui a falta (Quinet, 2017).
Sobre o conceito do estranho em Freud, Quinet (2009) coloca que, assim como a vacilação das determinações simbólicas que aparecem em análise, quanto o retorno do objeto a na angústia, provocam uma perda dos pontos de referência imaginários. O lugar que o sujeito encontrara para si no grande Outro, seu lar (Heim) se tornará estranho (Unheimmich). No fundamento do estranho/familiar está o objeto a de Lacan: objeto enigmático, causa do desejo, que está fora da linguagem. É isso que o analista encarna como semblante em análise. Para tal, este há de ter atravessado em sua análise sua fantasia e circundado o que é esse objeto para si. O objeto a é o objeto da psicanálise – lugar do analista, objeto estrangeiro e, paradoxalmente, familiar. No término da análise, há um esvaziamento de gozo e queda do objeto a, retirando do analista seu capital de libido.
Conforme coloquei ao iniciar, a escrita deste ensaio marca o encerramento do percurso na APPOA; acrescento que também diz de um momento em que ando me ocupando com a questão da transferência na clínica, seus efeitos e as possíveis consequências de sua condução por parte do analista. Assumir a posição de saber sobre o desejo do analisante vai contra o trabalho de rememoração, uma vez que retira a potência do sujeito, relegando seu sofrimento como consolável, passível de significação absoluta. O desejo do analista implica em assunção de responsabilidade, a qual inclui responsabilidade frente à memória do Outro.
Referência bibliográficas
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QUINET (2017). Quatro mais uma condição da análise. Rio de Janeiro: Zahar, 2017
QUINET, A. A estranheza da Psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar, 2009
Joana Finkelstein Veras é Psicóloga, Psicanalista. Mestre em Estudos Psicanalíticos (Tavistock and Portman NHS Foundation Trust, Londres). Especialista em Saúde Coletiva (ESP-RS)
Notas:
[1]Aparelho de tortura utilizado para ministrar choques elétricos. Comumente adaptava-se um telefone de campanha, no qual se ligavam fios e à medida que girava a manivela para seu funcionamento era acionado o choque elétrico no corpo.
[2]Local utilizado como ponto de encontro para reuniões; refúgio para os companheiros perseguidos.benjamim
