Depressão e a abordagem psicanalítica

Os transtornos depressivos ocupam o segundo lugar na lista de diagnósticos de saúde mental mais comuns, atingindo 28,9% da população geral. Estes ficam atrás somente dos transtornos de ansiedade, com 31%. Em pessoas adultas, os transtornos depressivos são os mais prevalentes dos transtornos mentais. Não é à toa que a Organização Mundial da Saúde denomina a depressão como “o mal do século XXI”.

A psicanálise entende as depressões de forma diferente de outras abordagens que generalizam a priorização da medicalização. E o que é isso? Não quer dizer que psicanalistas não concordem que os psicofármacos tenham efeitos positivos e que, em alguns casos, sejam fundamentais. Na perspectiva psicanalítica, toda terapêutica depende do caso. Como Maria Rita Kehl traz, as depressões são um sintoma social, ou seja, as pessoas que vivem na contemporaneidade estão sujeitas a deprimir-se. O tempo das coisas da vida é acelerado, imprime pressão para resolver tudo da forma mais rápida e eficiente; o apelo ao consumo, ao exibicionismo e à produtividade acenam com frequência. As manifestações visíveis das depressões (tristeza profunda, falta de energia, descrença no futuro), ao mesmo tempo que indicam que as pessoas deprimidas vivem na contramão do seu tempo, expressam um mal estar social (sem desconsiderar os aspectos singulares). Viver na contramão pode tornar a solidão e tristeza ainda maior, considerando o desprestígio desse diagnóstico na atualidade. O tratamento para o sofrimento do depressivo não deveria prescindir da fala, para que o que está engolido possa vir à tona, ser reconhecido e acolhido como fonte do trabalho terapêutico. A intenção não será fazer o paciente “voltar ao ritmo” esperado dele. Trata-se de oferecer um espaço que sustente esse tempo diferente e os sintomas que expressam que faltaram estratégias para fazer frente às pressões do mundo.

 

25/03/2026
Joana Finkelstein Veras
Psicanalista em Porto Alegre
CRP 07/12761