Cuidados prolongados: o que fazer quando os familiares mais velhos começam a precisar de cuidados de saúde?
Esta questão surge muito no cotidiano. No consultório, na conversa entre colegas de trabalho, com amigos, na vida familiar. É inevitável que isso surja cada vez mais dentro das famílias, considerando o aumento da longevidade na população. De acordo com a Organização Pan-Americana de Saúde – OPAS (2023), o número de pessoas idosas com necessidade de cuidados prolongados triplicará nas Américas até 2050. Entre as condições mais comuns que exigem cuidados de longa duração encontram-se: doenças crônicas, neurodegenerativas, sequelas de eventos agudos que geram limitações funcionais ou condições cognitivas progressivas, como a demência, entre outras.
Sintetizo em quatro pistas, sugestões que podem ajudar a pensar como fazer frente aos desafios de apoiar familiares próximos com cuidados à saúde, situação que surge quando menos esperamos:
Não cair na atitude de que “o velho é sempre o outro”
É muito comum assumirmos esse tipo de postura. Sem nos darmos conta, porém, de que a cada dia todos nós estamos envelhecendo. Vivemos em uma sociedade em que o idadismo (preconceito baseado na idade) é muito presente e muitas vezes imperceptível, pois está enraizado na nossa cultura. A discriminação contra as pessoas idosas pode surgir em uma conversa entre irmãos, que, sem darem-se conta, listam opções para a vida de um progenitor que não está bem de saúde, que recebeu um diagnóstico importante e pode piorar. É mais comum do que imaginamos que a pessoa mais velha, mesmo que lúcida, seja deixada de lado ao pensar opções para o rumo de sua vida. Incluir a pessoa em questão nas decisões sobre sua vida é fundamental para um desfecho mais tranquilo. Não é tarefa fácil, pois dificilmente haverá concordância de visões e opiniões desde o início. É uma dessas situações que requerem importantes adaptações na vida, assim como flexibilidade, sensibilidade e empatia em relação à situação e dor do outro.
Rede de apoio
Pensar em quem se pode contar para apoiar em diferentes aspectos: há profissionais de saúde de referência? Se não, vale a pena se debruçar sobre isso. É importante também verificar diferentes opiniões profissionais. Há familiares ou amigos a quem se possa recorrer em situações de urgência? E a rede social? Há instituições, públicas, privadas, ONGs ou grupos de apoio que se dediquem ao trabalho em situações específicas? Pesquise, informe-se. Às vezes, pessoas e locais inusitados podem ajudar mais que pessoas próximas. Assim como no caminho é possível descobrir boas possibilidades nunca imaginadas.
Planejamento financeiro
Muitas famílias são bastante afetadas pela repercussão que os cuidados prolongados trazem à organização das finanças familiares, requerendo ajustes e planejamento.
Faça terapia
Trago aqui talvez uma das sugestões mais importantes. Sempre que possível, se a situação está gerando ansiedade, inseguranças, esforço, adaptações na rotina, faça terapia. Se pensar nesse processo junto a um profissional é fundamental para se haver com os próprios limites e possibilidades em relação ao cuidado dedicado a um outro. Um outro que não é como o cuidado dado a uma criança, que muito frequentemente, se escolheu ter. É o cuidado dos que nos cuidaram. Isso suscita sentimentos de ambivalência, medo, culpa, mas também vontade de dar o melhor de si para poder apoiar considerando a subjetividade e dignidade de quem está precisando desse apoio, de quem se ama. Além disso, um processo de psicoterapia possibilita se colocar em perspectiva em relação a como cada um lida com o próprio envelhecimento, sendo de grande apoio para a tomada de decisões refletidas e mais tranquilas .
Joana Finkelstein Veras – Psicanalista Psicóloga
Porto Alegre, 4 de março de 2026.
